quarta-feira, 8 de abril de 2015

ERA UM GAROTO QUE, COMO EU...



Esta história começa em 1990, com um garoto que, então, não amava os Beatles e os Rolling Stones, embora tivesse (como até hoje é impossível não ter) noção de quem fossem os Fab 4.

Voltava pra casa de "especial", como se chamam (pelo menos em Belo Horizonte) os ônibus escolares. No ônibus do Agostinho, os caras e as meninas mais velhos estavam numa onda de cantar uma canção diária e animadamente. Disparavam muitos "ra-tá-tá-tá", o que era fascinante para um carinha de 10 de idade, na quarta série, e que só praticava Balão Mágico.

Foi quando a professora organizou um amigo oculto, desocultando um universo amplo, que se revelaria. "Ana Célia, eu quero o disco que tenha a canção "Era um garoto...". Banda? Não sabia. Não tinha como prever o que me viria.

Chegado o dia, aparece-lhe o produto e o que se abriu às "portas da percepção" foi um sofá vermelho. Nele, divertido, um cabeludaço de jeans e tênis à jogador de basquete. Jaqueta de couro, camiseta branca. Bem o que se esperaria (embora eu mesmo então não esperasse absolutamente nada) de um roqueiro. A seu lado, uma guitarra branca, simples. Ao lado dela, o que parecia ser um seminarista, ou um colega de trabalho do meu pai (que contava seus 38 anos). Cabelos rigorosamente penteados pra trás e fixados com gel. Óculos de armação também negra e grossa, e pose de bom menino.

Até aí tudo bem.

Ao lado do sofá vermelho, de pé, loiro e rubro-negro, o homem só. Cabelos longos, moletom preto com um símbolo massa estampado no peito, calças vermelhas com as mãos próximas ao bolso, mas com o indicador da mão direita estendido. O  indicador, senhores! O indicador!

Na minha traiçoeira memória tenho nítida a imagem de um pequeno guri loiro, futuro cabeludo, ouvindo o LP na casa da avó, com a tia de testemunha: "Tia, quanto tempo demora pro meu cabelo ficar assim?" Ela disse dois anos e eu tive outros planos...

Desembalado o disco em desabalada carreira ( o amor tem sempre urgência mesmo se é ainda potência) revelaram-se os nomes dos caras: Carlos Maltz, Augusto Licks, e Humberto Gessinger (Sim, senhores! As vogais já eram poucas naquele tempo!). Explicava-se, num aposto até poético, que o disco fora gravado "no inverno de 1990".

Garoto ordeiro que era, ao invés de saltar direto para a faixa que me atraíra, rodei a bolacha como concebida, ou produzida, pelo menos. "O exército de um homem só, I" Caramba! Algo começava ali, era só a primeira parte de alguma coisa. "Primeiro acorde da canção" E primeiro tive mesmo de acordar da canção. O que seria "acorde"? E despertei para o Aurélio. "Linhas tortas, portas da percepção, folhas que o outono leva ao chão". Tudo soava muito a contento e me contentava. E muitos "Acorde!" se seguiriam por aquela via.

Ali vinha um alerta: "só tocam o primeiro acorde da canção", só executam o primeiro. Só o primeiro acorde lhes toca? A eles quem? Que é isso? E uma liberdade se propunha: 

"não interessa o que o bom senso diz
não interessa o que diz o rei
(se no jogo não há juiz
não há jogada fora da lei)
não interessa o que diz o ditado
não interessa o que estado diz
nós falamos outra língua
moramos em outro país"

Caramba!

Sejamos justos, senhores! Imagina o que poderiam fazer na cabeça de um garoto de 10 anos versos assim? Ainda mais na de um habituado a balões cuja magia se restringia a "a escola é a luz que ilumina o caminho da gente. É por isso, amiguinho, que hoje eu estou tão contente". Aquilo era o contrário! Dane-se o que nos for ditado! Quase um "hey, teachers, leave the kids alone" ("the sun is the same, in a relative way...).

Para acabar de arrematar o encantamento, a letra no álbum acaba e vinha um "dedicada a Mathias Rust e sua solitária invasão do espaço aéreo soviético". Cara, até hoje eu não sei quem é esse Mathias (vou googlar acabado este post) e espero que ele rust in peace. Mas nasceu ali a inclinação por ver beleza na solidão, em alterná-la com a companhia que se oferecesse (era disputada a companhia, na companhia de quatro irmãos filhos de pais que trabalhavam bastante. Era impossível ter a que se queria, era impossível não se ter se não se queria)

E como é mesmo difícil o exercício da paz! E os caras se pegam desejando cada coisa horrível! Supressões, decapitações, o diabo! E, cara, "tanto faz ser culpado ou ser capaz. Tanto faz!"

Aí vinha a segunda faixa, a tão cobiçada "Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones", ou, como nos parênteses se oferecia: "Era un ragazzo che come me amava i Bealtes e i Rolling Stones", numa língua tão pouco roqueira que só agora eu fui perseguir. Dedilhado certinho, redondinho, voz calma, declamante. Entra uma bateriazinha bem simplesinha e o baixo na linha. Refrão com inglês (esse troço de línguas deve ser importante!)e o famoso "rá-tá-tá-tá", que na sala só o Crispira (que Deus o tenha, amigo!) sabia reproduzir certinho. O garoto já não usava cabelos longos e eu ainda estudando para entrar pra área. Medalhas no lugar do coração. "Nunca perseguirei a condecoração, serei o com o de coração!".

Anos depois descobri, numa entrevista, que o Humberto "era um garoto que como eu" começou com "era um garoto que como eu", que... arre! Latinha de pó royal esse troço, hein! Ou deixar a pátria livre ou morrer pelo Brasil!

"O exército de um homem só, II". Caramba! O assunto desse cara não acaba? Mais do mesmo? Essa soava mais estranha, mas "quase livre" ser "pior do que a prisão" era muito instigante! Como seria isso?  E, fora da letra, lá vinha um "Não faz! Sentido! Sim, senhor!" ou "Não faz... sentido! Não senhor!". E, outra vez, o Mathias: "Dedicada a Mathias Rust e seu maluco ataque a uma enfermeira na prisão. E a impressão forte de que Mathias era um amigo imaginado do bom-gaúcho.

"Nunca mais poder". Essa tinha uma levada mesmo pop, o pop não poupando nada. "Moderno como um relógio antigo", "underground", "mainstream"... O que eram essas coisas? Vinha-me um maravilhamento por as desconhecer muito parecido com os que hoje cultivam os cultivados acadêmicos diante de poetas indecifráveis. E aqui aparece, pela primeira vez no disco, o "fundo do coração". Prestes (comunista), Niemeyer (arquiteto e comunista)... ouvi esses nomes por aí. "Havana (comunista? Rs), Havaí, Hawaii, Highway", começava a se descortinar a geografia do que seria o meu país. "Quem cura, quem envenena, quem gera e quem extermina", todos na lista, tudo a mesma coisa, tanto faz! E então, "por que esse medo de ficar pra trás? De não ser sempre mais?" Todos iguais! Prescrição ou constatação? Todos buscando distinção, e isso os nivelando a todos. Ah, senhores! Luta inglória! E, ainda hoje, neste país como em outros, a glória infausta de uns quantos têm sido a de procurar a exclusividade, a exclusão.



"Pra ser sincero" Ó só! Essa música começa igualzinho a anterior termina? Que costura é essa? Isso é alguma postura? Pra ser sincero...É pra ser sincero (como não se pode ser...)? Quem não engana a si mesmo? De novo todos se enganando. Parece o esporte preferido por estes dias... Na minha primeira aula de violão, em 91, a guria do quarto ao lado (eram duas gurias em um e dois caras no outro) tava aprendendo essa. E eu só decorando nomes pros dedos. Foi doído aquilo. Uma canção de amor. "Crimes perfeitos não deixam suspeitos", então por que somos tão suspeitos? "Aperto de mãos, apenas bons amigos". Eu ainda não sabia, mas a vida se faria muito disso. E terminava como num filme de suspense...

"Olhos iguais aos seus" Parecia outra canção de amor. Inesperadamente, naqueles tempos pré-internet, essa constava de uma das minhas revistinhas de cifra pra violão, então acabei tocando-a muito, e... ficando sozinho com ela. Amor?:

"o que faz as pessoas parecerem tão iguais?
Por que razão essa igualdade se desfaz?
Qual a razão desse disfarce no olhar?"

Um solinho agradável do Licks, e uns sons meio à Pink Floyd.

E, ao fim, repetida em fade:

"o que fazem as pessoas para serem tão iguais"?

Outro amor...

"O Papa e pop" . Essa abria o lado Pop. A guitarra me agradava. "Todo mundo comprando os mais vendidos". "Ninguém tá salvo!" O pop não poupa ninguém! Papa alvejado à queima roupa. E o lance de o backing cantar um troço diferente, como em outras canções:

"o presidente é pop
um indigente é pop
nós somos pop também
a minha mente é pop
a tua mente é pop"

E uma das imagens mais bonitas do rock nacional:

"uma palavra
na tua camiseta
(o planeta na tua cama)
uma palavra escrita à lápis
(eternidades da semana)"

Algo sobre o poder da propaganda, em poder de metáfora. Uma relatividade temporal linda: "eternidades da semana".

E o "subrefrão" volta diferente:

"antigamente é pop
atualmente é pop"

E expressões que se tornaram parte do meu jargão, fundado ali:

"macumba pra turista" e "óculos do John ou olhar do Paul"?

"A violência travestida faz seu  trottoir" - Para você ter ideia do que essa música representou, ela foi usada como epígrafe da minha monografia para o curso de Direito, exatamente aqui:

"na maioria silenciosa, orgulhosa de não ter
vontade de gritar, nada pra dizer
a violência travestida faz seu trottoir"

O tema era plebiscito e referendo. Calha, não calha?

Eu não soube o que era "trottoir", nem me pareceu que fosse necessária. Essa canção, vi depois, era muito clara. Ela apresentava de forma clara uma visão de mundo. Esse cara estava, de fato, de calças vermelhas:

"na vitória do mais forte, na derrota dos iguais(...)
na procura doentia de qualquer prazer..."

Esse cara não é muito a favor do "capitalismo selvagem". E tomem inconsistências. "No vídeo idiotice intergaláctica". "livre iniciativa, igualidade aos desiguais", "vala comum de um discurso liberal". O cara é meio avermelhado, é pela fraternidade, não há negá-lo (naquela altura, bem entendido). E mistura-se a coisa com a degeneração privada, pelos sonhos incutidos pela grade de tevê. Garotos, apresentadoras de programa infantil. E uma dica:

"não se renda às evidências
não se prenda à primeira impressão
eles dizem com ternura
"o que vale é a intenção"
e te dão um cheque sem fundos
do fundo do coração"

É, esse fundo do coração deve ter um lastro fantástico!

"Anoiteceu em Poa". "Verde, amarelo, vermelho", um sinal de que há um gaúcho. Sinalizada a bandeira do Rio Grande do Sul! A luz vermelha do walkman, flor vermelha (outra flor vermelha, como a de Drummond? É a rosa do povo? É...).

E o rio que existe na zona sul e na verdade nunca existiu, só descobri anos mais tarde, quando fui a Meca, digo, Porto Alegre, é o Guaíba, que não é, de fato, rio, mas tem um por do sol como poucos. 

E tome aventura "vida afora, noite adentro", na terra de que fora o rebento. Saudades de gaúcho exilado no Rio de Janeiro por injunções do mercado musical? Pode ser! Essa música é fascinante, ainda hoje, tanto já visto e ouvido, de tantos. Tantas passagens. "eu trago comigo os estragos da noite". Quem não!?  Fichas telefônicas. Alguém aí lembra disso? Se lembram dos orelhões? "uma certa impressão, uma certeza imprecisa. Quem não precisa de uma versão, uma tradução?" e o que dizer da "certeza de que o último dia de dezembro é sempre igual ao primeiro de janeiro"?

"The sun is the same in relative way but you're older". Achei lindo e tardei uns oito anos pra enxergar o Pink Floyd. Canção intensa e eterna!

"Ilusão de ótica" - "eu entendo você que não me entende". Concessão aos que não captam as mensagens? Talvez. E uma lembrança útil a todos:

"cada um tem o seu ponto de vista
encare a ilusão da sua ótica
os olhos dizem sim
o olha diz não"

E a história da minha vida:

"sou cego
não nego
enxergo quando puder
só vejo
obscuro objeto
desejo indireto
será que você me entende?"

E a polêmica das mixagens invertidas, polêmica pros muito bobos, já que tava tudo ali, no encarte, de cabeça pra baixo. Mas... cego ruim mesmo é o que não quer ver.

Você... vê o que vejo?

Ah, e não tinha "Perfeita Simetria" no LP. Foi de bônus do CD. Só a consegui anos mais tarde. Será que o defeito desse cara é a perfeição? haha! Não, claro que não!



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