Depois de ter passado muitas solitárias horas com o disco não por acaso aberto com "O exército de um homem só, I", a próxima etapa foi uma colônia de férias, em janeiro de 1991, no Clube Ginástico, no alto da Afonso Pena. O que se tinha ali era um pequeno antro do basquete mineiro convertido em depósito de crianças cujos pais não tinham férias no período ou, tendo-as, não podiam ou queriam viajá-las.
Fizemos uma excursão pra algum lugar, talvez para o Mackenzie, outro antro parecido, em que a Panda também organizava colônia de férias naquele ano. No balaio pro Mackenzie, como no Escolar pro Santa Maria, todos cantando "Era um garoto...". A surpresa esteve em que, terminada essa, uma guria loira de cabelos encaracolados emendou um "Todo mundo tá revendo...", no que não foi secundada por ninguém, sequer por mim, e a onda morreu. Mas foi uma alegria pressentir que por ali afora tinha mais quem reparasse no quanto vinham boas coisas daquele "garoto que como eu..."
Daí depois, o sucesso sendo muito, organizaram uma "teatrinho" da canção na colônia do Ginástico. Um guri seria o Humberto, outro o Carlos e outro o Augusto. A bateria seria apenas cadeiras de lata cobertas com algo que as disfarçasse, e guitarras e microfones algo tão tosco quanto. Embora eu não me tivesse oferecido para o "sacrifício", fiquei super chateado, afinal "o cara é moreno! Como ele pode ser o Humberto?!" Não sei! "Só sei que foi assim!".
Engolido o despeito com a pantomina, o jeito foi esperar que os fulgurantes gaúchos aparecessem na telinha da Globo em sua apresentação no Rock in Rio II, o imenso festival brasileiro, que voltava à cena, sem cidade do rock e no Maracanã mesmo. E não deu outra! Sentei-me diante da TV com a boa Nilda, que a criança que fui via como a "empregada marrom". Foi nessa de esperar a aparição que conheci uma pá de sons, como o Guns N' Roses, que me chamou a atenção. Pacas! Mas... o lance era esperar o Humbertão e seus guris!
Cara, não foram tantas as canções do álbum que aprendera a amar, mas gostei praca de tudo o que ouvi. E a galera respondia super bem. Depois vi algum entusiasta dizendo que fora dos Engenheiros o momento de maiores decibéis vindos do público durante todo o festival, justo em "Era um garoto..."
Muito bom show! Ao tempo era impossível tocar uma música desinteressante, o repertório de até então era puro clássico. Humberto proferindo seus interessantes cacos, e Augusto detonando na guitarra, tudo isso com aquela presença de sempre do Maltz na batera, "mastigando o tempo", como explicaria anos depois na edição do Bem Brasil de promoção do álbum "Simples de Coração", em 1996.
Agora me imagina com 11 anos completos em agosto, vendo aquele cara surgir com seu cabelão loiro impecável e balançante (mulherada se roía de inveja, vide Adriana Galileu-Galisteu no Super Pop, anos depois). O cara tava com umas calças coloridas que não se viam, camiseta branca envergando o yin yang nas cores dela, e um coletinho. Isso com uma barbinha rala e tal. Devia contar 28 anos.
Abriram com "O Papa é Pop", e eu fiquei achando que a noite seria minha. Depois foram a "Nau à deriva". Achei foda. Dela a "Toda forma de Poder", numa versão bem parecida com a que depois me habituaria a ouvir no "Alívio Imediato", álbum ao vivo gravado no Rio em 1989. Muitos "êêôô", do público. Massa, velho! Massa!
Sem pausa à clássica-hit-Sartreada "Infinita Highway", que é a "Estrada da vida" mais filosófica do cancioneiro nacional. Foi a primeira canção que eu soube de cor no violão. Muito de cor, if you know what I mean:
"Não queremos ter o que não temos, nós só queremos viver em paz(...) Estamos vivos e é tudo! (...) mas eu tinha medo, medo dessa estrada (...) mas tudo que eu sentia era que algo me faltava (...) não queremos ter o que não temos, nós só queremos viver em paz (...) sem motivos nem objetivos, estamos vivos e é só! (...) será a estrada uma prisão? Não adianta mesmo ser livre num país em que tanta gente vive sem ter o que comer. (...) Que motivos temos pra estar atrás de palavras escondidas nas entrelinhas do horizonte desta highway?"
Foda-se essa gente babaca a fim de gostar do que pega bem e as FMs pegaram mal. Essa canção tocou ad nauseam e, ainda assim, é foda! E é bonita! E é indispensável, cara! E é a reunião de escritos de últimas folhas de caderno! Guardem as suas, piás!
Cara, e executada assim, com direito a bateção no baixo e o Carlos enlouquecido na batera!
Depois entrou o enCASSETAdo "Pedro Miau", repórter banal, e pediu estúdio. Seguiu-se "Somos quem podemos ser", com aquela guitarra/baixo de dois braços que pirava a gurizada. O Iago, meu afilhado, tá com 10 anos em 2015 e ainda pira nela! (Não gostou do DVD que lhe dei, mas...nevermind! - de Nirvana ele gosta, rs). "Garotos inventam um novo inglês, vivendo num país violento um momento de lucidez". Na versão do DVD de 2014 rola um "garotos não sabem mais português", mas é o Leidecker que canta, não sei a cargo de quem ficou o caco. "Todos nós temos um pouco de culpa, mas tudo bem! Porque todos nós somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter". Essa canção figuraria no meu material de literatura adotado no Santa Maria, em 1995, pro meu grande orgulho. A lição era sobre eu lírico. Era o único "rock" do livro.
"Terra de Gigantes" foi executada com Gessinger ao piano. Hino. "A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante", como viriam a confirmar nos anos 2000 o Jota Quest e o Charlie Brown Jr. "A cara limpa, a roupa suja, esperando que o governo mude". Como a juventude nada muda que muda de governo e acha que muda alguma coisa. Esses que tão aí hoje na ilusão do Aécio Never. Ah! Larga! "Por mais que a gente cresça tem sempre alguma coisa que a gente não consegue entender. Pois agora, lá fora, o Brasil é uma ilha a milhas e milhas e milhas de qualquer lugar(...) Terra de Gigantes que trocam vidas por diamantes". É moçada, nada novo no Quartel de Abrantes! Desde as sesmarias, by the way.
"Refrão de Bolero" (26:00 no vídeo), aqui tocada ao piano e com guitarra insinuante do Licks, na versão que nesse ano bombou na MTV, gravada no imperator, acho. A canção estourou alguns anos depois do disco que a continha. "..roendo as unhas, frágeis testemunhas de um crime sem perdão". O Metal, que agora deu pra achar que o Lobão é genial e o Gessinger só esforçado (dá pra ti?!) costumava achar genial essa passagem. E quem é Ana? Pergunta de séculos, que apareceu em uma faixa de "Surfando Karmas e DNA", primeiro disco dos anos 2000. Achei massa essa também!
"Alívio Imediato" foi de fazer tremer um garoto. E o que seria libido? Demorei uma cara pra saber, embora talvez já a sentisse, haha! "Poder, pudor, lábios e batom". Mande chuva o Manda-chuva! Dê-nos alívio! Imediato! "Há espaço pra todos, há um imenso vazio, nesse espelho quebrado por alguém que partiu". Dá-se conta dos desdobramentos? Esse cara é bom, cara! Eu te falo! "Tudo se divide, todos se separam". E do "duas Alemanhas, duas Coreias", que ficou logo depois de lançada um pouco velha, com reunificação tedesca, foi-se, no acústico livre de 1993, a "uma república no Pampa, com pompa e circunstância. Um muro nos divide, uma grade nos separa". Essa tem versões pacas, cara! Nem sei todas as variantes que já ouvi. E ele emendou um "Cartomante", do Ivan Lins. Só notei agora, revendo, claro! Nem sabia o que eram as do Humberto ao tempo, que dirá os cacos. Cara, e comprei duas coletâneas dessas vagabundas que se fazem em série, este ano, pra reunir as do Ivan de que gosto. Cartomante a mais relevante delas. Que gozado!: "Cai o rei de ouros, cai o rei de paus. Cai o rei de copas. Cai, não fica nada! Que os muros caiam! Que todos eles caiam!" Sobretudo os reis de ouros, caras!
E emendou em "Help!", dos Beatles, canção de beleza simples, que Lennon gravou quando, apesar de no topo do mundo, perambulava pela sua casa sentindo-se uma merda, vendo tevê o dia todo e aniquilado. Será que Humbertão tava nessa ou era só uma linda ponte, como foi, para "Era um garoto que como eu amava os BEATLES..."?
E veio "Era um garoto...", e os decibéis realmente foram notáveis. Muitos flashes nos arregalados a espaços olhos azuis do cara, o que nem sempre se explora (nem talvez se deva explorar, rs). E o cara deixou a moçada no "ou deixar a pátria livre ou morrer pelo Brasil" e perguntou "Quando será a pátria livre?", numa clara alusão à democracia apenas formal que sofremos no Brasil (ou sofríamos em 1991?). E "Esta música não é sobre essa guerra que tá rolando no Oriente Médio. É sobre a guerra civil que tá rolando no Brasil há muito tempo e ninguém se dá conta. Acho que morreu mais gente nessa chuvarada do que nos bombardeios de Israel", e tava aí a denúncia do eterno descaso das autoridades com relação ao problema da falta de estrutura da cidade maravilhosa pra receber a muita água que janeiro sempre traz. Algo como o tratado na canção do Biquíni Cavadão.
Ah, chega de narrar, Tchê! "De que lado tu estás?" Importa dizer que assistir a esse concerto teve sobre a minha engrenagem musical o efeito que tivera sobre o meu futebol assistir a Atlético X Flamengo no Mineirão lotado, no primeiro dos jogos da semifinal do Brasileiro de 1987, como quer que se chamasse então. "O futebol é uma galante palhaçada: o Galo antes, e o resto é nada!"
Gessinger antes, e o resto "é resto, é falsificação" haha! Brincadeira, só o pensei enquanto ainda muito futebolisticamente orientada a mente, depois abri pros nacionais todos. Viva o rock do Brasil! Até mesmo o Lobão!
Agora assistam! (Este tá em outra ordem, não entendi mais nada, haha! O em que me baseei não permite incorporação).
Alívio imediato na vossa madrugada!
Agora me imagina com 11 anos completos em agosto, vendo aquele cara surgir com seu cabelão loiro impecável e balançante (mulherada se roía de inveja, vide Adriana Galileu-Galisteu no Super Pop, anos depois). O cara tava com umas calças coloridas que não se viam, camiseta branca envergando o yin yang nas cores dela, e um coletinho. Isso com uma barbinha rala e tal. Devia contar 28 anos.
Abriram com "O Papa é Pop", e eu fiquei achando que a noite seria minha. Depois foram a "Nau à deriva". Achei foda. Dela a "Toda forma de Poder", numa versão bem parecida com a que depois me habituaria a ouvir no "Alívio Imediato", álbum ao vivo gravado no Rio em 1989. Muitos "êêôô", do público. Massa, velho! Massa!
Sem pausa à clássica-hit-Sartreada "Infinita Highway", que é a "Estrada da vida" mais filosófica do cancioneiro nacional. Foi a primeira canção que eu soube de cor no violão. Muito de cor, if you know what I mean:
"Não queremos ter o que não temos, nós só queremos viver em paz(...) Estamos vivos e é tudo! (...) mas eu tinha medo, medo dessa estrada (...) mas tudo que eu sentia era que algo me faltava (...) não queremos ter o que não temos, nós só queremos viver em paz (...) sem motivos nem objetivos, estamos vivos e é só! (...) será a estrada uma prisão? Não adianta mesmo ser livre num país em que tanta gente vive sem ter o que comer. (...) Que motivos temos pra estar atrás de palavras escondidas nas entrelinhas do horizonte desta highway?"
Foda-se essa gente babaca a fim de gostar do que pega bem e as FMs pegaram mal. Essa canção tocou ad nauseam e, ainda assim, é foda! E é bonita! E é indispensável, cara! E é a reunião de escritos de últimas folhas de caderno! Guardem as suas, piás!
Cara, e executada assim, com direito a bateção no baixo e o Carlos enlouquecido na batera!
Depois entrou o enCASSETAdo "Pedro Miau", repórter banal, e pediu estúdio. Seguiu-se "Somos quem podemos ser", com aquela guitarra/baixo de dois braços que pirava a gurizada. O Iago, meu afilhado, tá com 10 anos em 2015 e ainda pira nela! (Não gostou do DVD que lhe dei, mas...nevermind! - de Nirvana ele gosta, rs). "Garotos inventam um novo inglês, vivendo num país violento um momento de lucidez". Na versão do DVD de 2014 rola um "garotos não sabem mais português", mas é o Leidecker que canta, não sei a cargo de quem ficou o caco. "Todos nós temos um pouco de culpa, mas tudo bem! Porque todos nós somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter". Essa canção figuraria no meu material de literatura adotado no Santa Maria, em 1995, pro meu grande orgulho. A lição era sobre eu lírico. Era o único "rock" do livro.
"Terra de Gigantes" foi executada com Gessinger ao piano. Hino. "A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante", como viriam a confirmar nos anos 2000 o Jota Quest e o Charlie Brown Jr. "A cara limpa, a roupa suja, esperando que o governo mude". Como a juventude nada muda que muda de governo e acha que muda alguma coisa. Esses que tão aí hoje na ilusão do Aécio Never. Ah! Larga! "Por mais que a gente cresça tem sempre alguma coisa que a gente não consegue entender. Pois agora, lá fora, o Brasil é uma ilha a milhas e milhas e milhas de qualquer lugar(...) Terra de Gigantes que trocam vidas por diamantes". É moçada, nada novo no Quartel de Abrantes! Desde as sesmarias, by the way.
"Refrão de Bolero" (26:00 no vídeo), aqui tocada ao piano e com guitarra insinuante do Licks, na versão que nesse ano bombou na MTV, gravada no imperator, acho. A canção estourou alguns anos depois do disco que a continha. "..roendo as unhas, frágeis testemunhas de um crime sem perdão". O Metal, que agora deu pra achar que o Lobão é genial e o Gessinger só esforçado (dá pra ti?!) costumava achar genial essa passagem. E quem é Ana? Pergunta de séculos, que apareceu em uma faixa de "Surfando Karmas e DNA", primeiro disco dos anos 2000. Achei massa essa também!
"Alívio Imediato" foi de fazer tremer um garoto. E o que seria libido? Demorei uma cara pra saber, embora talvez já a sentisse, haha! "Poder, pudor, lábios e batom". Mande chuva o Manda-chuva! Dê-nos alívio! Imediato! "Há espaço pra todos, há um imenso vazio, nesse espelho quebrado por alguém que partiu". Dá-se conta dos desdobramentos? Esse cara é bom, cara! Eu te falo! "Tudo se divide, todos se separam". E do "duas Alemanhas, duas Coreias", que ficou logo depois de lançada um pouco velha, com reunificação tedesca, foi-se, no acústico livre de 1993, a "uma república no Pampa, com pompa e circunstância. Um muro nos divide, uma grade nos separa". Essa tem versões pacas, cara! Nem sei todas as variantes que já ouvi. E ele emendou um "Cartomante", do Ivan Lins. Só notei agora, revendo, claro! Nem sabia o que eram as do Humberto ao tempo, que dirá os cacos. Cara, e comprei duas coletâneas dessas vagabundas que se fazem em série, este ano, pra reunir as do Ivan de que gosto. Cartomante a mais relevante delas. Que gozado!: "Cai o rei de ouros, cai o rei de paus. Cai o rei de copas. Cai, não fica nada! Que os muros caiam! Que todos eles caiam!" Sobretudo os reis de ouros, caras!
E emendou em "Help!", dos Beatles, canção de beleza simples, que Lennon gravou quando, apesar de no topo do mundo, perambulava pela sua casa sentindo-se uma merda, vendo tevê o dia todo e aniquilado. Será que Humbertão tava nessa ou era só uma linda ponte, como foi, para "Era um garoto que como eu amava os BEATLES..."?
E veio "Era um garoto...", e os decibéis realmente foram notáveis. Muitos flashes nos arregalados a espaços olhos azuis do cara, o que nem sempre se explora (nem talvez se deva explorar, rs). E o cara deixou a moçada no "ou deixar a pátria livre ou morrer pelo Brasil" e perguntou "Quando será a pátria livre?", numa clara alusão à democracia apenas formal que sofremos no Brasil (ou sofríamos em 1991?). E "Esta música não é sobre essa guerra que tá rolando no Oriente Médio. É sobre a guerra civil que tá rolando no Brasil há muito tempo e ninguém se dá conta. Acho que morreu mais gente nessa chuvarada do que nos bombardeios de Israel", e tava aí a denúncia do eterno descaso das autoridades com relação ao problema da falta de estrutura da cidade maravilhosa pra receber a muita água que janeiro sempre traz. Algo como o tratado na canção do Biquíni Cavadão.
Ah, chega de narrar, Tchê! "De que lado tu estás?" Importa dizer que assistir a esse concerto teve sobre a minha engrenagem musical o efeito que tivera sobre o meu futebol assistir a Atlético X Flamengo no Mineirão lotado, no primeiro dos jogos da semifinal do Brasileiro de 1987, como quer que se chamasse então. "O futebol é uma galante palhaçada: o Galo antes, e o resto é nada!"
Gessinger antes, e o resto "é resto, é falsificação" haha! Brincadeira, só o pensei enquanto ainda muito futebolisticamente orientada a mente, depois abri pros nacionais todos. Viva o rock do Brasil! Até mesmo o Lobão!
Agora assistam! (Este tá em outra ordem, não entendi mais nada, haha! O em que me baseei não permite incorporação).
Alívio imediato na vossa madrugada!

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